quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

e a cada lágrima que despencava
um estrondo que só eu ouvia
ensurdecia
rígidas, elas se tornaram estalactites
punhais que feriam
a todos que me olhassem

terça-feira, 25 de outubro de 2011

saí daquela porta caminhando
sobre meus próprios estilhaços
(não, você não quer mais me ver)
as casas e os carros parados
andavam incrivelmente mais rápidos
que de costume
os estilhaços desmoronavam
se agarravam aos meus braços
com medo de se extinguirem nos pingos d´agua
que decolavam até as telhas de zinco
(não vou acordar cedo amanhã)
uma parte de mim está nublada

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

aqui onde eu estou
parado
cercado de céu por todos os lados
posso escutar os diálogos
silentes entre as orelhas dos que passam
voam sobre mim dirigíveis inflados
de pensamentos sobre o que nunca existiu
a morte marte e a sorte
(corta para o céu desabando sobre outubro)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

eu tenho em mim todas as crianças que fui
e as visito quando dá
pra pedir que parem de olhar para a parede
pra dizer que a culpa de terem envelhecido não é delas
e que o nirvana já aconteceu
antes de nascermos

domingo, 16 de outubro de 2011

Lume koan

está além do entendimento
o porquê do fogo sublimar os arrozais
os arranha-céus e os lírios
se nunca fomos a centelha
que despenca em slow
motion sob as pétalas
nuas

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

que esta luz que atravessa o céu, a arvore
-do-céu e os fios de lã cesse
e me deixe dormir dentro de uma caixa de presentes
como as moscas que sonham nas poças
de fanta uva
quero esquecer como fazíamos para sofrer
sentir o infinito demolindo o infinito
nos lugares que estão vazios
andar de bicicleta nos fios dos postes
e a cada pedalada ir virando pólen
pra deixar de ser mais um lugar vazio
pra deixar de ser mais um lugar vazio
pra deixar de ser
um sabonete uma bola
cor de piscina uma nectarina
estou tentando ser livre
das idéias que me regem:
como é ter uma vagina?
Isso só em outra vida
me assustam vidas infinitas
me diminuem como as pílulas
de nanicolina; ou as vaginas
que me regem como as outras
vidas e suas pílulas e sabonetes
cor de piscina
minha parede vê
religiosamente
todas as manhãs
quando chegava iluminava a rua
era constantemente chamado de lua
este vagalume gigante
o mundo gira como giram as girafas
como giram os gira-giras como giram os girassóis
e os carrosséis
como giram os cata-ventos como giram os ventiladores
como giram as bailarinas e os olhos
dos camaleões
prestes a vir um ornitorrinco
no peito um deságue
nas pálpebras prestes
a vir uma faca
na pupila um desgosto incolor
prestes a vir o sabor
e o soluço do ar pesado no céu
da boca prestes a vir
apenas o fim
que vem
no instante após
minha fuga soprada pelo hálito
do sábado um temporal
de minúsculas luminárias
com defeito vai desabar
sobre os galhos
de hortelã no instante
após minha fuga soprada
pelo hálito do sábado
cabras vão virar geléia
e as beterrabas terão internet
de banda larga no instante
após minha fuga soprada
pelo hálito do sábado tudo
o que se ouvirá será o téc
téc téc do ventilador
de teto
quero te ter como uma cadela
lamber a alma o abdômen
o sêmem e o despudor
de fazer cocô nas poças d´água
quero te ter enquanto seus olhos
permanecerem fugitivos e então
quando os arrepios tornarem-se irremediáveis
te aplicar uma injeção
de ternura
fui urinar e havia
no mictório
um coração largado e o mesmo frio
que gelava a urina dos outros
mantia intacta a cor do coração roxo e ouro
que pulsava
sem corpo
entre um silêncio e outro
silêncio
uma ereção
o verde daquele
cosmético sorvete
de pistache o dedão
do pé o mamilo
rosa e o gosto
de pasta
de dente
me hipnotizam enquanto
as persianas retráteis
de alumínio apanham
do granizo
usa esta mochila
pra colocar o chiclete
de pimenta o giz
carmesin uma girafa
com asas o segredo
que esconde
o porque do seu medo
de nadar
de morrer
de anões vestidos de palhaço
quando me vê aquela
barriga de látex
se enche de borboletas
de plástico uma mensagem
no Facebook avisando
que me ama e acabou
de sair do trabalho
estou apaixonado por um manequim
da C&A
colidiu
na janela um pássaro
de papel um flash mob
de estrelas
serviço funerário do município
de São Paulo nenhum
lugar pra onde vão
a barba por fazer o vapor
de poliéster a chuva
se expande
como ter espinha
guardar o restinho
da bateria do IPhone
pra ouvir o tintilar
do futuro
do orgasmo
do guarda-chuva que escurece
eu adoro fazer #amor
estava escrito
na parede o céu
alfazema cheirava
merda! Atropelou
um tiranossauro
de brinquedo um carro
vermelho que dizia:
recém-casados
nuas são lindas
as garotas gordas
como comer broa
de fubá bolo
de banana com a mão
seguro meu pênis e esfrego
como se esfregasse minha
alma de pão
acabou de voar
do meu nariz uma barata
chorando por achar
o mundo grande demais
pra caber
meu coração que chacoalha
junto de outros corações e baratas bailarinas
de tecnobrega